quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Um pouco mais sobre mim

Meu primeiro ano na escola não traz boas recordações, toda sala foi reprovada. Explico. O professor, sim era um professor primário, pois naquela época a profissão era reconhecida e os salários melhores, ficava namorando a mulher que nos servia os lanches. Para não deixar a sala de aula sem comando, ele colocava a filha da merendeira para passar as lições. Tivemos que refazer todo o primeiro ano, pois descobriram que não era o ele quem aplicara as aulas e as provas. Foi um martírio grande ter que repetir todos os exercícios iniciais de aprendizagem quando já estava alfabetizado. Durante todo primário fui levado para a escola no colo por minha mãe, ela me deixava na carteira onde ficava até que vinha me buscar no final da aula. Chovia ou fazia sol, grávida ou não, lá estava eu na sala junto com os outros alunos. Foi nessa época que desenvolvi continência urinária, pois não saía da classe para os intervalos e tinha que segurar a vontade de ir ao banheiro. Do segundo para o terceiro ano, mudei de escola, voltei a morar na mesma casa onde havia nascido. O diretor da escola não queria me aceitar como aluno, dizia que meu caso demandava educação especial e que não estavam preparados para receber um aluno deficiente físico. Depois de muito choro e argumentos de minha mãe (que eu não daria trabalho e que me levaria e buscaria), o diretor cedeu e pude concluir o primeiro grau.
Só voltei a estudar quatro anos depois. Neste período fui fazer tratamento médico, fiquei internado várias vezes nas Clínicas a fim de fazer cirurgias que melhorassem minha condição física. Por ser muito “arteiro” acabei desenvolvendo uma escoliose muito acentuada na coluna vertebral. Lembro que em uma tarde, quando tomava banho, minha mãe perguntou o que era “aquela bola” em minhas costas. Não soube responder e percebi que algo grave havia ocorrido comigo. Chorei muito, mas muito mesmo, pois além da paralisia infantil tinha adquirido outra deformidade.
Em outubro de 1970, logo depois do Brasil ser Campeão Mundial de futebol no México, fui internado para a grande cirurgia. Foram 75 dias de internação, a maior parte desse tempo foi para tratar de uma anemia. Enquanto esperava o dia para ser operado, passei a compreender e entender o dia a dia de uma Instituição Total, que consiste em controlar a vida dos indivíduos a ela submetidos substituindo todas as possibilidades de interação social por "alternativas" internas. Os pacientes perdem completamente sua identidade pessoal, vestem-se com um uniforme – nesse caso um avental branco aberto nas costas, os cabelos cortados semanalmente de forma igual para todos, as visitas tinham dia e horário para acontecer. Havia a ala dos homens e a ala das mulheres, em andares diferentes.
Sentia-me como Jack Nicholson no filme “Um Estranho no Ninho”. Fui chamado atenção três vezes e recebi uma advertência. Os motivos foram: promover corrida em cadeira de rodas, vestir-me de múmia usando as faixas do setor de curativos para assustar os mais novos, visitar a ala dos infectados (que era determinante proibido) e, por fim, por namorar. Edna, esse era o nome dela, foi minha primeira namorada, nos conhecemos na missa de domingo celebrada na capela do hospital, e não me contentava em vê-la só nos fins de semana, às vezes dava uma escapada e ia visitá-la em sua ala. Isso foi a gota d’água. Chamaram a minha mãe e a comunicaram que não poderia mais fazer parte do quadro de pacientes e que estava liberado para voltar pra casa. Somente com a intervenção das enfermeiras é que fui impedido de retornar pra casa mais cedo. Em dezembro sofri a cirurgia, quase trinta pontos nas costas e um colete de gesso de dois dedos de espessura. Estava momentaneamente no estaleiro. Fiquei com esse gesso durante nove meses, um parto. Com o passar do tempo quase não percebia o seu peso e o incômodo que ele causava. Coloquei os aparelhos ortopédicos e a comecei fazer fisioterapia, só que não com a frequência necessária, pois dependia de um tio que tinha carro e sua disponibilidade pra me levar ao hospital. A verdade é que não me adaptei com os aparelhos, vivia caindo e me machucando. Resolvi ser cadeirante. Estava com 16 anos, meus amigos estavam estudando e comecei a me preocupar com isso. Havia parado no primário e haveria um longo caminho pela frente, quanto mais cedo começasse mais rápido terminaria e uma das máximas lá de casa era: se com estudos já é difícil, sem ele seria impossível arrumar um bom emprego.
Agradecer a KGL pelas dicas. Imagens Google

2 comentários:

  1. Só para dizer que passei por aqui para ouvir um pouco a tua experiência. Abraço, Fábio

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